Você sabe quais são os efeitos adversos da cloroquina no olho?



Quando o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, declarou para à imprensa que os cientistas já haviam encontrado uma possível “cura” para o coronavírus, e pediu pressa para o FDA (Food and Drug Administration) aprovar o uso da hidroxicloroquina, os próprios pesquisadores quase caíram de suas bancadas. Foi uma entrevista precipitada com base em dados preliminares em alguns pacientes. O mundo ficou dividido com essa polêmica e muitas pessoas esgotaram os estoques do medicamento cloroquina e hidroxi (cloroquina) nas farmácias, sem ao menos saberem como era utilizado, dosagem e para quais casos em específico.


Em apenas dois dias, os pacientes que realizavam tratamento contra a malária, o lúpus e artrite reumatoide se viram sem o medicamento que antes era muito simples e fácil de se encontrar. Com isso a ANVISA decidiu bloquear a compra facilitada da cloroquina e exigir receita especial para garantir que houvesse a disponibilidade do medicamente para quem precisasse de fato. Mas e o que aconteceu com todo aquele pessoal que fez a compra desenfreada e sem conhecimento científico apropriado? E a cloroquina funciona mesmo? Quais são seus efeitos colaterais?


Os primeiros ensaios realizados em laboratório demonstraram um potencial da cloroquina na inibição da replicação viral e entrada na célula hospedeira. Entretanto, os estudos in vitro podem nem sempre reproduzem o mesmo efeito in vivo, ou seja, precisamos de muitos outros estudos científicos controlados para obter essa resposta. O estudo realizado na França, em que o presidente dos EUA mencionou por exemplo, possui algumas falhas metodológicas e resultados bem duvidosos.


O que muitas pessoas não se atentaram foi o fato de que qualquer medicamento possui efeitos colaterais e com a cloroquina isso não poderia ser diferente. A cloroquina e a hidroxicloroquina podem apresentar reações adversas no trato gastrointestinal, sistema hematológico, neurológico, neuromuscular, dermatológico e cardiológico.


Os efeitos oculares também são reportados na literatura, que podem induzir desde um aumento de toxicidade retiniana até maculopatias (degenerações/lesões na mácula - pequena área localizada no centro da retina - responsável pela visão centralizada, ou seja, pelos detalhes).


Outros sinais oculares de toxicidade da cloroquina ou hidroxicloroquina nos olhos incluem depósito em espiral na córnea (córnea verticilata), poliose, diminuição da acomodação, paralisia dos músculos extraoculares, uveíte anterior, catarata subcapsular anterior e posterior, maculopatia em olho de boi (bull's eye), neurite óptica e atenuação dos vasos retinianos. Dessa maneira, os pacientes normalmente podem se queixar de halos ou fotofobia (sensibilidade extrema a luz).


Os depósitos do medicamento que ficam na córnea são geralmente assintomáticos e reversíveis caso a droga seja suspensa ou descontinuada. Podem se apresentar como pontos brancos ou como linhas em espiral, conforme o uso contínuo da medicação.


Como dica mais importante, devo ressaltar que todos os pacientes em uso de cloroquina e seus derivados deverão ser examinados, monitorados e documentados desde o início, com exames oftalmológicos completos. Ainda existem poucas evidências sobre o medicamento no uso contra o COVID-19, porém, o Ministério da Saúde liberou o uso para os pacientes mais graves, para que possam se beneficiar dos efeitos em âmbito hospitalar e com o acompanhamento médico.


Lembre-se que a automedicação traz o risco de interação medicamentosa com outros remédios que a pessoa tome regularmente, o que pode agravar a toxicidade da cloroquina e da hidroxicloroquina. Infelizmente até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus, mas temos ótimos cientistas lutando para que esse quadro mude. #JuntosPelaCiência


Fonte: Complicações oculares da terapêutica com a cloroquina e derivados. Arq. Bras. Oftalmol. vol.73 no.4 São Paulo July/Aug. 2010

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